terça-feira, 15 de maio de 2018

Ser mãe não é complicado


Meu bebê nasceu! Ser mãe é uma benção mesmo, ô glória! Todo o sentido da vida em seus olhinhos redondos, em sua boquinha banguela, no maravilhoso bafinho de leite. Só é ruim quando caga, e quando começa a morder as coisas, a gente, quando perde aquele cheirinho de neném e começa a feder um  pouco. Mas no geral é tudo muito fácil, muito tranquilo, “o amor compensa tudo” como dizem, e "lavou tá novo" como também dizem.

Não existe essa de ser estressada nem sobrecarregada. Tá com fome? Papinha, biscoito (daqueles que contém frutas, sabe?). Tá doidão correndo pela casa? Uma voltinha no quarteirão já resolve. E essa história de que mãe não pode sair de casa? Pelo amor do Olimpo! É só sair! Se você tem um filho bem educado ele não morre nem destrói as coisas na sua ausência.

Mas e as viagens? Acorde meu povo! Existem instituições especializadas onde você pode deixar seu baby (escolas, hotéis), e também aqueles amigos que aceitam cuidar das nossas coisas enquanto viajamos. Fora que é possível passar uns três ou quatro dias fora de casa, apenas deixando um montão de comida disponível e um baldinho d’água. As mães são livres!

Ninguém nunca nos abandonou. Todo mundo adora meu filho, eu adoro meu filho, todo mundo adora todo mundo aqui e ninguém abandona ninguém. Só se fosse muito necessário mesmo, porque nunca se sabe. Se eu fosse viajar para muito longe e por tempo indeterminado; se eu fosse alérgica... Quem sabe? Mas aí seria necessidade e não abandono, quem discorda? E eu também não sou nenhuma pessoa má, não deixaria meu filho na estrada largado para morrer atropelado, ou preso para morrer de fome, nunca! Eu o daria para alguém de minha confiança.

Mãe de Pet.

P.S: Ser mãe também não é caro, gasto uns quarenta ou cinquenta reais no máximo.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

O gosto da hipocrisia


Como são inspiradores esses documentários sobre gente fodida. A panela aberta no chão de terra batida, a comida fedida disputada pelo menino e o cão, a moça de 23 anos com cara de 64, os filhos pendurados, jogados, ah... Quanta inspiração! Melhor ainda é quando mostram a África, aquelas crianças barrigudas e sujas esperando por ajuda. Gosto mesmo é de ver tristeza, prédio caindo, gente caindo, morrendo, morrendo de fome, de frio, de bala perdida, de bala encomendada. Gosto de ver menina vendida, comprada, estuprada. E as pessoas sem membros que dão palestras? Aí sim, não há nada mais motivador.

Desligo a televisão me sentindo inspirado, motivado, vou à luta! Lutar pelo que mesmo? Ah! O bem, lutar pelo bem! Enquanto me olho no espelho vejo um homem de sorte, “poderia ser eu um daqueles fodidos” – penso. Quanta sorte! Na verdade, em meio a tanta sorte nem me lembro de mais nada. Vou trabalhar, porque deus ajuda quem cedo madruga e não àqueles que são vagabundos.

A inspiração passou, pois só há merda no caminho até o trabalho. Está tudo fedendo, todos estão suando, e esses mendigos nas calçadas? Estão mesmo cagando no chão? Que nojo! Que nojo desse mendigo, dessa criança me pedindo dinheiro. Tem muito mendigo e bosta, que nojo! Cheguei ao escritório, que sorte! Nenhum pobre tocou em mim com suas mãozinhas sujas; mas o seguro morreu de velho e por isso convém me lavar bem. Fui educado para ser limpinho – sorte!

Fim de tarde, “hora feliz” com os amigos, bebo e retorno para casa no meu carro que eu adoro. No conforto da minha poltrona, ligo a televisão. É bom se informar, pois quem tem boca vai à Roma, vaia Roma, faz o que mesmo? Enfim, informação, informação, eu adoro o conhecimento... Está passando um documentário, que sorte! Gente fodida, que inspiração!

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Tristeza apaixonada


A felicidade dança a poucas quadras dos corações infelizes, e por isso estar triste é como estar apaixonado.

Uma dor e uma alegria acenam de longe, por trás das garrafas de vidro. Lançam-nos olhares insinuantes enquanto se beijam como moças safadas e bêbadas. Que fazer senão olhá-las de volta? Enquanto falam sem som, as línguas nos chamam. Para onde? Para o sobrado ao fim da rua, lugar vazio frequentado por ninguém – desejo.

Nos cantos aconchegantes de nossa solitude o escuro nos cobre de calma. Aqui as moças se encontram e se despem malucas como se lhes pinicassem as roupas. Não há espaço mais seguro e por isso aqui também nos comemos como um pedaço de carne, como um talo de couve, como qualquer coisa resistente que nos exige os dentes. Sou assim: pérfida. Corto-te como comida, e mastigo e engulo e esqueço.

Sou má, talvez, e não ligo. Na verdade nem entendo. Haveria uma forma de ser menos cruel? Não. Toda felicidade é assim: como bruxaria, mistério, feitiço ou milagre. Assusta os despreocupados. Preocupe-se! Diz a felicidade.

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